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Raízes do Brasil e o homem cordial

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Em minha pesquisa para a palestra de “Política e Cidadania”, dois livros se tornaram cruciais para entender como o brasileiro vê a política nos dias de hoje. Um desses livros é Raízes do Brasil. Escrito em 1936 por Sergio Buarque de Holanda (pai do Chico Buarque), se tornou um clássico absoluto da historiografia brasileira, fundamental para compreender a nossa formação patriarcal, conservadora e predatória. Compreendemos também o nosso histórico desprezo por regras e valores democráticos, onde as grandes decisões são tomadas totalmente pelo calor da emoção, em detrimento da razão.

A passagem mais marcante do livro é a descrição contida no capítulo 5, sobre o “homem cordial”. Até hoje essa tese continua pautando trabalhos de acadêmicos, sociólogos, historiadores, jornalistas e professores em todo o Brasil. Para a palestra no II Encontro em Lençóis, montei uma apostila (que pode ser baixada neste link), destacando trechos sobre o “homem cordial”, que reproduzo abaixo:

A indistinção fundamental entre família e Estado é prejuízo romântico que teve os seus adeptos mais entusiastas durante o século XIX. De acordo com esses doutrinadores, o Estado e suas instituições descenderiam em linha reta, e por simples evolução, da família. A verdade, bem outra, é que pertencem a ordens diferentes em essência. (…) Não era fácil aos detentores das posições públicas de responsabilidade, formados por tal ambiente, compreender a distinção fundamental entre os domínios do público e do privado. Para o funcionário “patrimonial”, a própria gestão política apresenta-se como assunto de seu interesse particular. As funções, os empregos e os benefícios que deles aufere relacionam-se a direitos pessoais do funcionário, e não a interesses objetivos, como sucede no verdadeiro Estado burocrático, em que prevalecem as especializações nas funções e o esforço para assegurar garantias jurídicas aos cidadãos. A escolha dos homens que irão exercer funções publicas faz-se de acordo com a confiança pessoal que mereçam os candidatos, e muito menos de acordo com suas capacidades próprias. Falta a tudo a ordenação impessoal que caracteriza a vida do Estado burocrático. É possível acompanhar, ao longo de nossa história, o predomínio constante das vontades particulares. Isso ocorre mesmo onde as instituições democráticas, fundadas em princípios neutros e abstratos, pretendem assentar a sociedade em normas antiparticularistas.

A contribuição brasileira para a civilização será a cordialidade – daremos ao mundo o “homem cordial”. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representa, com efeito, um traço definitivo do caráter brasileiro. Seria engano supor que essas virtudes possam significar “boas maneiras”, civilidade. São antes de tudo expressões de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Entre os japoneses, a polidez envolve os aspectos mais ordinários no convívio social, chegando a ponto de confundir-se, por vezes, com a reverência religiosa. Nenhum povo está mais distante dessa noção ritualista da vida do que o brasileiro. Nossa forma ordinária de convívio social, no fundo, é justamente o contrario da polidez. Ela pode iludir na aparência – e isso se explica pela mímica deliberada de manifestações espontâneas do “homem cordial”.

No “homem cordial”, a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias de sua existência. No domínio da linguística, esse modo de ser parece se refletir em nosso pendor acentuado para o emprego de diminutivos. A terminação “inho” serve para nos familiarizar mais com as pessoas ou com os objetos, e ao mesmo tempo, para lhes dar relevo. É a maneira de fazê-los mais acessíveis aos sentidos e também aproximá-los do coração. À mesma ordem de manifestações pertence a tendência para a omissão do nome da família no tratamento social. Em regra, é o nome individual, de batismo, que prevalece. Seria plausível relacionar tal fato à sugestão de que o uso do simples prenome importa em abolir psicologicamente as barreiras determinadas pelo fato de existirem famílias diferentes e independentes umas das outras.

O desconhecimento de qualquer forma de convívio que não seja ditada por uma ética de fundo emotivo representa um aspecto da vida brasileira que raros estrangeiros chegam a penetrar com facilidade. Um negociante da Filadélfia manifestou certa vez seu espanto ao verificar que, no Brasil, para conquistar um freguês, tinha a necessidade de fazer dele um amigo.

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