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Dica Pedagógica IBS: A literatura como direito do ser humano

O IBS e o Direito a Literatura
“Toda obra literária é antes de mais nada uma espécie de objeto,
de objeto construído; e é grande o poder humanizador desta
construção, enquanto construção”.
32545718_1675632562544709_2153352394392469504_nA literatura está diretamente ligada a humanização, entendemos por humanização como um processo que confirma no homem traços essenciais como a reflexão, aquisição do saber, o cultivo do compartilhar, entre outros.
A cultura deve ser valorizada em todas as classes sociais e o IBS trabalha para que todas as pessoas tenham acesso a literatura e a arte.
Portanto, a luta pelos direitos humanos abrange a luta por um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes níveis da cultura. Uma sociedade justa pressupõe o respeito dos diretos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas modalidades em todos os níveis é um direito inalienável.
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Assim, no mês em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 70 anos, o Instituto Brasil Solidário – IBS faz um convite para uma análise das discussões propostas por Antonio Candido
(…) a literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza. Negar a fruição da literatura é mutilar a nossa humanidade.” As palavras do crítico literário Antonio Candido, publicadas no ensaio O Direito à Literatura (1988), revelam como um dos maiores intelectuais brasileiros entendia a relação entre o acesso à leitura e os direitos humanos.
Em seu texto Direitos humanos e Literatura, Antonio Candido defende que a literatura é, ou ao menos deveria ser, um direito básico do ser humano, pois a ficção/fabulação atua no caráter e na formação dos sujeitos.
Primeiramente, ele destaca o que são os direitos humanos, aqueles ligados a alimentação, moradia, vestuário, instrução, saúde, a liberdade individual, o amparo da justiça pública, a resistência a opressão, bem como o direito à crença, à opinião, ao lazer. Este são bens que asseguram a sobrevivência física e também a integridade espiritual.
Neste gancho, Candido indaga: e por que não o direito à arte e à literatura também?
Segundo Candido, a literatura se manifesta universalmente através do ser humano, e em todos os tempos, tem função e papel humanizador.
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Mas como essa humanização se dá?
De início, Antonio Candido destaca que chama de literatura, tudo aquilo que tem toque poético, ficcional ou dramático nos mais distintos níveis de uma sociedade, em todas as culturas, desde o folclore, a lenda, as anedotas e até as formas complexas de produção escritas das grandes civilizações.
E defende a ideia de que não há um ser humano sequer que viva sem alguma espécie de fabulação/ficção, pois ninguém é capaz de ficar as vinte quatro horas de um dia sem momentos de entrega ao “universo fabulado”.
Se ninguém passa o dia todo sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a literatura (no sentido amplo dado nesse texto) “parece corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito” (CANDIDO, 1989, p. 112).
A literatura é, para ele, “o sonho acordado da civilização” (p. 112), e assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem sonho durante o sono, “talvez não haja equilíbrio social sem a literatura” (p. 112). É por esta razão que a literatura é fator indispensável de humanização e confirma o ser humano na sua humanidade, por atuar tanto no consciente quanto no inconsciente.
A literatura tem importância equivalente às formas evidentes de inculcamento intencional, como a educação familiar, grupal ou escolar.  Por isso, as sociedades criam suas manifestações literárias (ficcionais, poéticas e dramáticas) em decorrência de suas crenças, seus sentimentos e suas normas, e assim fortalecem a sua existência e atuação na sociedade.
21056188_1415616738546294_8772071392336764564_o-300x224Antonio Candido salienta ainda:
[…] a literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudicais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas. (p. 113).
O crítico ainda chama atenção para a questão do papel formador de personalidade que a literatura tem. Não podemos vê-la como uma experiência inofensiva, mas como uma aventura que pode causar problemas psíquicos e morais, ou seja, a literatura tem papel formador de personalidade, sim, mas não segundo as convenções tradicionalistas; ela seria, na verdade, “a força indiscriminada e poderosa da própria realidade” (p. 113).
A literatura, então, não corrompe e nem edifica, mas humaniza ao trazer livremente em si o que denominamos de bem e de mal. E humaniza porque nos faz vivenciar diferentes realidades e situações. Ela atua em nós como uma espécie de conhecimento porque resulta de um aprendizado, como se fosse uma espécie de instrução.
30 min marco-22A humanização, de acordo com Antonio Candido, é:
“[…] o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, à sociedade e ao semelhante” (p. 117).
Além disso, assevera que “[…] a literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob a pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza” (p. 122).  E defende o fato de que “a literatura pode ser um instrumento consciente de desmascaramento, pelo fato de focalizar as situações de restrição dos direitos, ou de negação deles, como a miséria, a servidão, a mutilação espiritual.” (p. 122), e por estas razões, a literatura está relacionada com a luta pelos direitos humanos.
Em suma, o que o renomado sociólogo e crítico literário brasileiro defende é que a luta por direitos humanos abrange um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes níveis de cultura. É por isso, portanto, que uma sociedade que seja de fato justa “pressupõe o respeito pelos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável” (p.  126).
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Antonio Candido
Crítico Literário, ensaísta, sociólogo, professor, são as características profissionais que definem Antônio Cândido de Mello e Souza, que partiu do interior de Minas Gerais, embora houvesse nascido no Rio de Janeiro em 1918, para ser reconhecido e premiado no Brasil e no mundo.
A imaginação popular pode identificar, preconceituosamente, um crítico da arte como alguém que não foi capaz de produzir uma grande obra, portanto se ateve a analisá-las e emitir seu parecer. O próprio Antônio Cândido, que se dizia muito tímido, chegou a imaginar que as coisas que sabia, não eram do interesse de ninguém, em suas próprias palavras. Estava enganado.
Antônio Cândido era um pesquisador incansável, leitor ávido, grande intérprete de metáforas, lendas, símbolos, arquétipos e investigador. Observador da sociedade e um estudante da psique humana.
A essa personalidade, soma-se o fato de possuir uma escrita agradável, que é facilmente digerida e, portanto, suas observações se tornaram definitivamente relevantes para a literatura.
Referência:
CANDIDO, Antonio. Direitos Humanos e literatura. In: A.C.R. Fester (Org.) Direitos humanos E… Cjp / Ed. Brasiliense, 1989.

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