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É Fantástico, é Brasil!

agua

Confesso que tenho medo dessas reportagens-denúncia, que saem todo domingo no Fantástico. São os nossos intestinos ali, em micro-câmeras escondidas, mostrando todo tipo de fraude com dinheiro público. Enquanto pessoas morrem de fome, sede ou na fila de um posto de saúde, empresas de fachada (sempre alguma cooperativa ou ONG criada apenas para este fim) se esbaldam. Uma festa para poucos, como sabemos.

Pincei duas dessas reportagens mostrando quadrilhas desviando dinheiro de serviços vitais para a população. A primeira é sobre fornecimento de água, onde vítimas da seca recebem água contaminada em caminhões-pipa. A segunda é sobre a saúde pública, onde um novo recorde foi batido: 12 segundos por um atendimento médico. É Fantástico, é Brasil!

O Profissão Repórter, do Caco Barcelos, não ficou atrás e fez um especial sobre a corrupção no estado do Ceará, que você pode assistir clicando aqui.

Mesmo após todos esses anos estudando a corrupção, ainda consigo me impressionar com a cara-de-pau de certos cidadãos que, quando pegos na curva, saem pela velha tangente brasileira do “todo mundo faz”. A partir daí, a gente entende muito sobre o Brasil, pois é exatamente essa mentalidade que termina por validar a corrupção como prática corrente do dia-a-dia. Pior ainda quando dizem que fazem isso “pelo povo”. Quando vejo isso, lembro sempre de uma frase genial do Millôr Fernandes: “A situação é de tamanha indignidade que até pessoas totalmente indignas já estão indignadas.”

E assim constatamos que até com a corrupção a gente dá um “jeitinho”. Primeiro ficamos chocados, “oh, mas que absurdo!”. Depois vem a indignação e exigimos explicações. Aí o tempo vai passando, vai passando… e nada acontece, porque os órgãos competentes são incompetentes (ou fazem parte do esquema). Subitamente, bate aquela preguiça, e a vontade de deixar tudo isso pra trás. E, por fim, aquela pizza meia-muzzarela, meia-calabresa, porque, afinal de contas, bate aquela “fome” e ninguém é de ferro. Assim, os corruptos vão, aos poucos, reassumindo seus postos e tudo vai voltando ao que era antes. Às vezes, um assessor ou secretário é demitido, talvez até seja preso (como bode expiatório). Mas a estrutura, a “máquina”, essa continua funcionando da mesma maneira. Esse é o preço que pagamos por ser um país que empurra seus problemas com a barriga.

Sei que esse é o lado feio do Brasil. Um lado que não gostamos nem de olhar. Mas o fato é que ele existe e pior: ele dita as regras. Sei também que essa não é a melhor maneira de fechar o ano, muito menos de começar o próximo, mas como em 2014 teremos eleições, cabe lembrar que a corrupção não escolhe lugar para morar; não tem cor nem classe social e atua aos sábados, domingos e feriados.

A corrupção, meus amigos, está no nosso bairro e é nossa vizinha de porta. Resta apenas perguntar até quando continuaremos a conviver pacificamente com ela…

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