«

»

Interpretando uma charge

charge_bennett

Hoje quero falar de um assunto que entendo: charges. Quero que você olhe detidamente para a charge acima, feita pelo colega Bennett e publicada na Folha de S. Paulo. Agora, clique aqui e leia o comentário indignado que um leitor enviou ao jornal. Perceba que o problema não foi o leitor não ter gostado da charge. O propósito da charge é esse mesmo, o de provocar discussão. O problema foi a interpretação que ele deu ao desenho. “Comparar a fúria dos vândalos em São Paulo ao consumo dos brócolis é uma analogia inadmissível. Essa charge é um enorme desestímulo para o consumo de hortaliças no país”, disse ele. O que mais espanta é que o chargista ainda teve o cuidado de dar o título “A banalização da violência” à charge. Isso nos faz concluir que, para o leitor ter chegado a uma leitura esquizofrênica como essa, ele só pode ser:

1) um troll de internet, desses que descontextualiza tudo deliberadamente para criar falsas polêmicas na rede;

2) um ecochato-politicamente-correto-militante, que vê “preconceito” em tudo, quando, na verdade, o preconceito está nele próprio;

3) um analfabeto funcional, que não sabe interpretar o que lê.

E aqui vamos ao dado mais alarmante em todo esse episódio: o tal leitor é professor da ESALQ (USP), uma das mais prestigiadas faculdades de agronomia do país. Assim, deveríamos assumir que a opção 2 é a mais provável e descartar automaticamente a terceira opção. Mas, no mundo de hoje, chegamos ao ponto em que não podemos desconsiderar nenhuma possibilidade.

No caso de ser a opção 3 a correta, quero acreditar que o tal professor se especializou tanto em agronomia que faltou às aulas de português, gramática e interpretação de texto. Quero acreditar que a única falha que ele cometeu foi nunca ter lido um livro que não fosse sobre agronomia.

De qualquer modo, deixo aqui meu alerta a todos os professores que me leem nesse momento: estimulem seus alunos a ler um pouco de tudo, a debater mais, a buscar múltiplas interpretações, porque é esse exercício que os fará ter uma visão de mundo mais ampla e não cair nesse erro grotesco do professor-agrônomo.

Até a próxima!

3 comentários

  1. Wolber Campos

    Grande Diogo!

    Lamentável, não? Eu acredito que muitos sofrem hoje em dia de um mal que é a mistura de suas alternativas 2 e 3. Quando a militância sócio-política força a pessoa, muitas vezes inconsciente, a deturpar os fatos.

    Cansei de ver universitários, que tiveram bom estudo, e possuem um discurso antiquado, de uma esquerda que já provou estar equivocada e enxergam apenas os fatos que lhe interessam para exaltar tal visão das coisas.

    Isso nos dá medo, porque passamos a ver ignorância mesmo em pessoas tidas como cultas, formadoras de opinião.

    A saída é justamente isso que você disse: estimular nossos alunos a lerem cada vez mais, e sem preconceitos ou opiniões pré-estabelecidas, principalmente dada por outras pessoas.

    Um abraço!

  2. Diogo Salles

    Pois é, Wolber. Acho que, no geral, tem um pouco a ver com o fato de o brasileiro em geral não gostar de ver suas certezas confrontadas. Assim, quando ele vê isso acontecer, reage dessa forma fanática e simplista.

    Eu procuro fazer o contrário, gosto de ler as opiniões mais conflitantes e, aí sim, fazer minha leitura dos fatos.

    abs
    Diogo

    1. Jucileide Pereira Nunes Lima

      A escola tradicional não ensinou ao aluno ler nas entrelinhas, não proporcionou a enxergar o não-dito nos textos lidos.Disso surge as (re)ações mais equivocadas possíveis independente do grau de instrução, pois isso é fruto de um instituído, que predomina até hoje. Mas, fico feliz porque é a leitura como fonte de deleite, sem ser autoritária, que proporcionará o burlar, o transgredir com o instituído, surgindo assim o instituinte com a transcendência do devir. Os conflitos e/ou opiniões conflitantes durante as leituras realizadas contribuirão para o surgimento do caos que provoca uma ação-reação-ação. Ah,sim estas reações provocadas pelas leituras são frutos da hermenêutica!
      Abçs.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


+ 8 = treze